Suspensão dos testes da vacina – ação de relações públicas ou exemplo de conduta ética nos negócios?

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Por Carlos Peixoto

Em 08/Set o consórcio formado pela empresa britânico-sueca AstraZeneca e a University of Oxford anunciou publicamente a suspensão temporária da Fase 3 de testes em humanos (Inglaterra, Índia, Brasil, África do Sul e Estados Unidos) de sua vacina em desenvolvimento para o SARS-Cov-2, mais conhecido como Covid-19.

A vacina em teste, AZD1222 (1) foi inventada pela Vaccitech, startup oriunda dos laboratórios de Oxford – ressalto a importância do apoio da sociedade à pesquisa científica nas universidades, pois em nosso meio, embora tenhamos bastante do que nos orgulhar, ainda estamos devendo muita coisa.

Sem entrar aqui nos detalhes técnicos, políticos e comerciais que podem ser consultados pelos interessados na extensa análise de importante órgão da imprensa formal (2), vale uma nota de reconhecimento pela transparência com que a organização veio a público prestar os esclarecimentos sobre o andamento das pesquisas, o que reveste do maior interesse por parte da comunidade internacional, notadamente em nosso país, pois que também temos voluntários envolvidos nos testes.

Como sabemos, há desde o início do presente ano, uma série de iniciativas de pesquisas para alcançar a imunização contra esse vírus cuja infestação tem causado efeitos devastadores à economia mundial e principalmente devido à perda de um excessivo número de vidas em volta do globo. A informação atual é de que somente a vacinação poderá nos fazer retornar a algum tipo de normalidade. Grande estardalhaço se tem feito em termos de campanhas comerciais e de interesses menos nobres, tanto locais como na esfera global, na busca de colher dividendos políticos num momento extremamente delicado da Humanidade. Fora a astronômica quantia de dinheiro envolvida no processo.

A essa altura do desenvolvimento humano, alcançamos um alto grau de progresso econômico, científico, tecnológico, social e político, embora ainda subsista um enorme rastro de pobreza, fome, conflitos territoriais e socioambientais, desastres imigratórios, além da persistente problemática das desigualdades sociais. Exemplos positivos de colaboração internacional para a solução de um problema dessa magnitude são muito benvindos.

Pois a AstraZeneca veio a público (3) declarar que suspendeu os testes da vacina, devido à identificação de um voluntário que desenvolveu uma complicação chamada nos meios médicos de transverse myelitis. Você não leu errado. Foi UM caso em meio aos milhares de voluntários injetados com a vacina em teste e aqueles que receberam placebo (4) em cinco países de diferentes continentes. Esse tipo de ocorrência é comum durante o processo de desenvolvimento de medicamentos.

Mesmo assim, independente dos milhões de Euros e Dólares já investidos, das enormes pressões políticas, dos egos aflorados, do “tanto que está em jogo”, a empresa, através das pessoas em seus postos de mando simplesmente decidiram fazer o óbvio. Óbvio que muitas vezes é posto de lado quando há baixo nível de maturidade moral. Quando se prefere sucumbir às pressões externas a ouvir o chamado da fortaleza interior, daquele conjunto de princípios que as pessoas e as organizações forjam ao longo do tempo e que as protegem das intempéries dos interesses do curto prazo, dos resultados financeiros do trimestre e as levam a permanecer firmes e a privilegiar a própria sobrevivência.

Eu, por mim, baseado na história da Oxford University, do alto dos seus quase mil anos de existência (5) e pelo que a AstraZeneca também representa no setor farmacêutico mundial (6), aposto que a decisão não levou mais do que uma única reunião virtual. Suspender os testes; iniciar os protocolos predefinidos para revisão de procedimentos de avaliação e monitoramento da saúde do voluntário; informar a sociedade; decidir os próximos passos após completar o ciclo, com a retomada dos testes ou o retorno ao laboratório para corrigir eventuais erros. E sempre manter o público interno e externo informados, profissionalmente como previsto.

Não é apenas uma questão de técnica de relações públicas. Trata-se de boas práticas de conduta ética, enraizadas na cultura organizacional dos negócios e instituições que têm a tendência de sobreviver aos indivíduos e às circunstâncias.

  1. https://en.wikipedia.org/wiki/Vaccitech
  2. https://www.nytimes.com/interactive/2020/science/coronavirus-vaccine-tracker.html?campaign_id=154&emc=edit_cb_20200909&instance_id=22048&nl=coronavirus-briefing&regi_id=127405043&segment_id=37720&te=1&user_id=5349dd97082d7ac618e73cfff045d45
  3. https://www.astrazeneca.com/media-centre/press-releases/2020/statement-on-astrazeneca-oxford-sars-cov-2-vaccine-azd1222-covid-19-vaccine-trials-temporary-pause.html
  4. https://pt.wikipedia.org/wiki/Placebo
  5. https://pt.wikipedia.org/wiki/Universidade_de_Oxford
  6. https://www.astrazeneca.com/our-company.html

(Todas as consultas feitas em 10/09/2020)

Carlos Peixoto

Carlos Peixoto

Carlos Peixoto é Consultor em gestão empresarial e foi executivo internacional de companhia de serviços por mais de 25 anos. Contador, especialista em Finanças pela Universidade de Los Andes, Bogotá e especialista em Gestão de Projetos pela FGV. Atualmente é Head do Comitê de Oil&Gas da Britcham Contato: cp@carlospeixotoconsulting.com

9 respostas

  1. Artigo sensacional , escrito de uma forma clara e imparcial . Sou participante deste estudo e agora me sinto mais segura em tomar a segunda dose pois é uma empresa transparente e comprovadamente preocupada com a segurança acima de tudo .

  2. Transparência e ética são valores inerentes a ciência. Bom seria se esses valores invioláveis e respeitados pelos políticos. Parabéns Peixoto pela atualidade do tema.

    1. Transparência e ética são valores inerentes a ciência. Bom seria se esses valores fossem invioláveis e respeitados pelos políticos. Parabéns Peixoto pela atualidade do tema.

  3. Ótima e necessária análise de um fato que, embora corriqueiro na fase III do desenvolvimento de um produto farmacêutico, tende a se tornar sensacionalista no meio leigo.

  4. Peixoto,
    Excelente artigo!
    Tanto no conteúdo específico sobre a vacina, como também na reflexão sobre a ética nos negócios.
    Resgatar, praticar e incorporar.

  5. A ética e a substancia motriz, da descencia do caráter; em uma
    Conduta pragmática universidade de Oxford E a AstraZeneca e em detrimentos dos resultados
    Financeiros ou de reconhecimentos acadêmico, paralisaram todos teste por um ser humano!.Ética não se compra e não se vende! Simplesmente se é ético e responsável!
    Amor ao próximo simples assim!!!
    Sucesso meu grande amigo

    Carlos Peixoto

  6. Carlos, parabéns pelo artigo. Ele ratifica a importância da transparência no desenvolvimento de qualquer projeto. Com certeza a credibilidade da Empresa vai ser lançada ao patamar mais alto do segmento farmacêutico.

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