Será que o ESG veio para ficar?

Compartilhe nas Mídias Sociais

Share on facebook
Share on google
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp

Por Carlos Peixoto.

A cada tanto somos bombardeados por um novo buzzword que vai tomando conta do noticiário e competindo por atenção nos grupos de conversa online. O que antes animava apenas os bate-papos nos botequins, nos bancos das praças ou nos corredores dos escritórios, tem agora no mundo seu palco e plateia. Para bem ou para mal.

Escutamos falar e já comentamos, sem sequer ter lido direito. Muitos opinam sem saber do que se trata, outros com pouca informação e sem muita elaboração. O importante é se dizer o que se pensa. Porém, a maioria não está muito interessada em aprofundar em matérias mais complexas e que demandam tempo e estudo. Fala-se bastante, às vezes em caixa-alta, até que o próximo assunto receba um pushing de algum outro influencer.

Quem não recorda o Millenium Bug ou Y2K Bug que entre 1997 e 1999 deixou homens e mulheres de negócios e quase todo o mundo assustado, com enormes custos para as empresas e os governos. Enfim, quem mais ganhou foram as empresas de mídia, as consultorias, auditorias e tais. Dizia-se, então, que os programas dos computadores, cujo sistema de datação havia sido criado com dois dígitos para determinar o ano (dd/mm/aa), poderiam dar causa a falhas catastróficas com a passagem para o ano 2000, afetando os cálculos atuariais dos planos de pensão, os juros, as liquidações dos contratos futuros de bolsa, etc. Não foi bem assim. Mas o tema consumiu muito papel de impressora, muita saliva e sobretudo somas estratosféricas de dinheiro.

Depois veio a febre da SOX e do Compliance, por volta de 2002, na esteira das estrondosas perdas causadas pelas fraudes contábeis da então poderosa Enron, conglomerado de energia com sede em Houston e que levou de roldão à debacle da poderosa empresa de auditoria Arthur Andersen. No livro “The smartest boys in the room”, Bethany McLean e Peter Elkind descrevem as falcatruas e a criatividade (no mal sentido) empregada pelos executivos da empresa, seus contadores e auditores. O resultado foi a erosão de bilhões de dólares na economia das pessoas e alguns suicídios, devido à perda de confiança do público em geral nos números publicados pelas empresas cotadas em bolsa. E sem falar em WorldCom, Tyco e outras. A legislação e controles criados depois é sem paralelo na política e nos negócios.

Por essas bandas, depois da publicação em 2013 da Lei Anticorrupção, vivemos um longo período de investigações e processos criminais, vis-à-vis a “Lava-jato”. É inegável o impacto econômico, político e moral da perda de confiança, que muitos até conseguiram mitigar parcialmente mudando o nome de certas organizações “pegadas com a boca na botija”. Fora as prisões de grandes figuras do cenário político e empresarial brasileiro, muitas hoje já em casa. E pensávamos que o Brasil jamais voltaria a ser o mesmo! Isso tudo é ainda é muito recente, de forma que não entremos em detalhes para evitar as paixões que o assunto costuma despertar e que não são o objeto desse pequeno texto. Mas que o tema consumiu muito papel e garganta, isso não se pode negar. Fora as amizades que balançaram ou sucumbiram em decorrência das acaloradas discussões nos aplicativos de bate-papo.

Há uma variedade imensa de outros temas que vêm e vão, como “bullying”, “gênero”, “créditos de carbono”, “títulos verdes”, “gases do efeito estufa”, “geosmina na água da Cedae”, “brumadinho”, “transição energética”, “carro elétrico”, “célula de hidrogênio”, “horário de verão”, “desmatamento”, “uso de máscara” e tantos outros. E tome papel, dedo no teclado, muita saliva e paciência com os amigos mais exaltados.

Agora nos deparamos com uma nova sigla: o tal ESG. Do idioma Inglês “Environmental, Social and Governance”, que se refere, em poucas palavras, aos critérios de sustentabilidade que são cada vez mais adotados pelos grandes investidores para ajudar na decisão sobre os empreendimentos em que alocarão seus recursos. E aqui vale prestar bem atenção, pois sustentabilidade não trata de “abraçar arvorezinha” ou “uniformizar criancinha para recolher lixinho na praia no fim de semana”. A sobrevivência de uma organização no longo prazo, requer uma adequada gestão de riscos, inclusive os não-financeiros, que os administradores costumavam relegar a um plano inferior, notadamente na hora de reportar desempenho aos investidores, autoridades reguladoras e demais partes relacionadas. Não mais.

As questões socioambientais e de governança são a cada dia mais prementes, principalmente devido ao aumento da consciência geral sobre a finitude dos recursos naturais, as mudanças climáticas, as desigualdades sociais e um melhor conhecimento à cerca das consequências da ação humana no aquecimento global. As novas gerações de consumidores cada vez mais se comportam como cidadãos do planeta e tendem a mudar seus padrões de consumo e decisões de investimento levando em conta a percepção que têm do comportamento dos agentes econômicos. E pelas mídias sociais, influenciam as decisões de outros grupos. Os administradores e principalmente os investidores deram-se conta que não basta medir, melhorar e publicar apenas a performance financeira. É importante também conhecer, medir, prever, administrar e reportar o desempenho socioambiental e de governança dos empreendimentos. E com isso medir o desempenho dos administradores no trato dessas questões, tendo em vista os interesses de todos os stakeholders. Não apenas em cumprimento das obrigações de caráter regulatório. Enfim, a geração de valor econômico para o acionista já não é o único objetivo dos administradores das empresas e dos fundos de investimento.

Sobre se o assunto vai pegar, para mim parece claro que conviveremos com o ESG por um bom tempo. Melhor ir se acostumando e se preparar para adquirir um razoável conhecimento do assunto. Procurar entender os conceitos e nos familiarizar com o planejamento, a execução e as ferramentas de medição e reporte do desempenho socioambiental e de governança dos nossos negócios, para além dos parâmetros financeiros. E dos negócios em que investiremos nossas economias, além das empresas de quem consumiremos produtos e serviços.

Os competidores estão de olho. Mais ainda, nossos clientes e investidores já começaram a tomar decisões baseados nessa nova realidade.

Confira mais notícias em: https://negocios.pro.br/

Referências:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Problema_do_ano_2000

https://en.wikipedia.org/wiki/Sarbanes%E2%80%93Oxley_Act

https://pt.wikipedia.org/wiki/Enron

https://www.pdfdrive.com/the-smartest-guys-in-the-room-the-amazing-rise-and-scandalous-fall-of-enron-e200325763.html

http://www.mpf.mp.br/grandes-casos/lava-jato

https://www.investopedia.com/terms/e/environmental-social-and-governance-esg-criteria.asp

https://valor.globo.com/publicacoes/suplementos/noticia/2021/02/02/emissoes-de-titulos-verdes-ja-superam-os-us-53-bi.ghtml

https://www.youtube.com/watch/KYegWOTFqGI

Será que o ESG veio para ficar?

Será que o ESG veio para ficar?

Será que o ESG veio para ficar?

Será que o ESG veio para ficar?

Carlos Peixoto

Carlos Peixoto

Carlos Peixoto é Consultor em gestão empresarial e foi executivo internacional de companhia de serviços por mais de 25 anos. Contador, especialista em Finanças pela Universidade de Los Andes, Bogotá e especialista em Gestão de Projetos pela FGV. Atualmente é Head do Comitê de Oil&Gas da Britcham Contato: cp@carlospeixotoconsulting.com

34 respostas

  1. Perfeita a colocação Peixoto. Acredito que não seja apenas mais uma moda, que a essência veio para ficar. Talvez mude a sigla, mas os conceitos de uma empresa sustentável, com boa governança e cuidado com a comunidade serão pre-requisitos para o sucesso no presente e no futuro!

  2. Muito bem escrito, estamos encontrando cada dia mais fundos procurando projetos com impacto positivo social e ambiental.

    1. Amigo Peixoto: excelentes suas colocações. Dignas de uma nota 10.Meus mais sinceros parabéns . MPiragibe

  3. Na mosca! ESG começou devagar, veio por décadas engatinhando, mas de poucos anos para cá rapidamente vem ganhando espaço exponencialmente. Será variável crítica para análise de valor, como conceitos de fronteira eficiente, CAPM e WACC vieram a ser, apesar de suas inconsistências/dificuldades de mensuração. Por exemplo, CAPM só veio a ser desenvolvido nos anos 60 e revolucionou análise de investimentos. ESG é provavelmente o próximo divisor de águas. Abraço. Muito bom artigo.

  4. Peixoto foi muito feliz em sua análise.
    O ESG já é critério fundamental para a decisão de investimento de agentes internacionais e cada vez mais de investidores brasileiros.
    Parabéns, excelente artigo.

  5. As organizações devem ter métricas de controle abrangentes ( KPI Tolls ), como descrito no texto, não apenas financeiras.
    Saúde, Segurança, Meio Ambiente, Responsabilidade Social e Qualidade, assim como, outras métricas devem ser mensuradas e técnicas de melhoria contínua aplicadas. Parabéns pelo texto.

  6. Caro Peixoto, na minha opinião o ESG veio para ficar e isto fica claro para mim quando se vê a publicidade cada vez mais frequente das empresas brasileiras da cadeia produtiva do agro negócio brasileiro apontando na direção da sustentabilidade das suas ações.
    Quem não se adequar a esta prática nos próximos 10 anos, vai sofrer um baque que poderá ser fatal. Uma das empresas que terão que se adaptar correndo e a VALE. Parabéns pelo artigo

    1. Muito obrigado pelo tempo dedicado à leitura atenta, amigo Peotta. Concordo plenamente com o que diz, observando que com relação à empresa Vale, tenho acompanhado o grande esforço deles em administrar os riscos socioambientais inerentes à atividade a que se dedicam. O negócio de mineração realmente requer muito mais do que estava sendo feito e eles estão investindo muito para ficar “ahead of te game”. Sem greenwashing, que é o que estamos vendo bastante por aí, em meio, é claro, a ações de real valor. Valeu pelo comentário.

  7. Belo artigo Peixoto.
    Assim como os requisitos de Compliance, entendo que as práticas de ESG vieram para ficar. Podemos igualmente ter uma certa dose de exagero inicial até atigirmos a maturidade necessária para incorporar esses conceitos a contratos, editais e outros documentos negociais.

  8. Parabéns Peixoto. A importância e o valor a ESG já não é novidade . Conheço um grupo de S. Paulo que esta mentorando uma Startup que está desenvolvendo um aplicativo que calcula os impactos da ESG de forma disruptiva e com elevada competência. Sabidamente é a “menina dos olhos” dos grandes fundos mundiais a atrairá grandes empresas que se preocupam com sustentabilidade e desejam ser investidas.

  9. Parabéns Peixoto porque você foi muito feliz na concatenação dos fatos e na mensagem estruturada de seu texto. Vários agentes da vida profissional cotidiana se reorientam para aderir ao que isto representa : empresas, bancos, escolas, universidades, institutos etc. Quiçá haja um alinhamento maior ainda, açambarcando mais atores da vida profissional e por que não sermos os maiores vetores deste redirecionamento em nossos próprios lares, educando filhos e familiares ?

  10. Parabéns Peixoto! Muito bom trazer a tona este tema que vai além da “moda” pois são critérios cada mais utilizados para a tomada de decisão .

  11. Caro Peixoto.
    Parabéns pelo artigo. Realmente como bem colocado por você, inúmeros são os temas que através da mídia moderna ocupam de forma avassaladora, instantânea e efêmera a atenção da sociedade. A função social das empresas, insculpida na novel Constituição Federal de 1988, despertou e obrigou um forte compromisso com a sustentabilidade, deixando o lucro de ser exclusivamente o único objetivo da empresa, mas também que tenha um desenvolvimento responsável com sustentabilidade ambiental e social, que não apenas evite, mas combata e reduza a deterioração do meio ambiente e o esgotamento de recursos naturais.

  12. Parabéns Peixoto pelo artigo tão bem escrito quanto fundamentado. Concordo plenamente que estes valores vieram para ficar, e que para ter lucro as precisam estar em conformidade com eles. Só lamento que exista tanto jogo político escondido por trás destas normativas, como no caso atual do Mácron contra o acordo do Mercossul com a União Europeia, onde ele lança mão, sem escrúpulos, de pautas ambientais exageradas e tendenciosas geradas por interesses políticos nem sempre confessáveis. Peixoto, a pauta que você escolheu não poderia ser mais oportuna. Parabéns

    1. Obrigado, Sobral, por ter lido meu pequeno texto e por dedicar seu tempo em comentar. Você está certo quanto à impripriedade do uso político das questões socioambientais. O que é relevante no caso do ESG é que se trata prioritariamente de iniciativas entre entes privados, conscientes da importância de se administrarem os negócios com uma visão mais holística.

  13. Prezado Peixoto, é um grande tema que todos devemos nos ater, pois a sustentabilidade ambiental, econômica e social pressupõe um comportamento responsável das empresas ao longo de suas trajetórias, que não apenas evite, mas combata e reduza a deterioração do meio ambiente, o esgotamento de recursos naturais e as condições que desestabilizem a economia e instituições sociais vitais.
    Espero que seu tema atinja milhares de empresas e milhões de pessoas.
    Parabéns!

  14. Obrigado Peixoto, por compartilhar tais informações. Até a leitura do seu artigo não havia escutado sobre ESG. Vou buscar mais informações e me preparar de acordo.

    1. Obrigado a você, Tairone, pela leitura atenta e pela candura do feedback. Enviarei no privado algumas fontes para estudo. Ainda que eu sei que você, praticante e difusor dos conceitos da Metanoia, já vive esses conceitos em sua atuação como lider empresarial.

  15. Caro Peixoto, parabéns pelo texto e pela clareza com que enfatiza a importância da ESG no futuro das empresas como métrica de qualidade e aderência aos interesses de todos.
    Vejo com muita esperança este movimento tomando cada vez mais força junto aos Players do mercado, mas ao mesmo tempo, tenho uma impressão de deja vu, pelos outros exemplos que você tão bem explora no seu excelente artigo.
    Mais uma vez, parabéns e meu grande abraço.

  16. Peixoto, excelentes colocações e corroboro em numero e grau no que se refere a permanencia do ESG no nosso cotidiano, e mais, diante do cenário de escassez de recursos naturais que enfrentamos, torna o ESG fundamental.

  17. Caro Peixoto, excelente artigo sobre ESG. Não tenho dúvidas que o ESG veio para ficar. É importante reforçar que não se trata de uma agenda de “caça as bruxas” de empresas de alguns setores da economia. A metodologia e transparência ESG nos permite comparações interessantes a fim de evitar preconceitos e desvios. Para ilustrar: em recente artigo no FT uma das grandes empresas de O&G nos EUA, Occidental, informa que a capacidade de captura de CO2 (CCS) é maior do que a capacidade da Tesla de evitar as emissões dos seus carros elétricos. Vale a reflexão.

  18. Assunto atual e relevante muito bem abordado pelo Peixoto. Pessoalmente valorizo muito a postura da empresa na questão ambiental. Qualquer empresa que queira ter credibilidade, além de ser honesta e correta, terá que incluir em sua cultura preocupação com o meio ambiente.

  19. Muito bom artigo Carlos! Parabéns! Aos poucos fica claro para mercado e consumidores que a gestão de ESG vai muito além de uma questão de “branding, ou marketing verde”. Conhecer e gerir o ambiente e a sociedade das áreas de influência do seu empreendimento é fundamental para minimizar riscos em qualquer atividade. Gestão socioambiental é por fim, gestão de recursos.

  20. Artigo certeiro. Acrescento que, do ponto de vista científico, a prática da sustentabilidade refere-se à sobrevivência no longo prazo das organizações e também de toda nossa espécie como parte da existente da natureza. O ESG é sem dúvidas um conceito e ferramenta fundamental para tal prática nos dias atuais. Obrigado pelo conteúdo!

  21. Excelente percepção Peixoto
    Num mundo cada vez mais VUCA (Volatility, Uncertainty, Complexity and Ambiguity) , uma certeza parece relativamente óbvia na cena empresarial brasileira. Aclamado em 2020, no meio da pandemia a ESG , com certeza , veio para ficar . Atingindo o seu ápice de reconhecimento como valor para os negócios, após duas décadas de desconfiança, relutância e bullying.

  22. Excelente abordagem, Carlos Peixoto.
    Importante e oportuno que todos revelem à exaustão a questão ambiental, tão desprezada no passado, com produzir a qualquer custo, exportar é o que importa…

  23. Parabéns pelo artigo! Ao meu ver está muito bem escrito e estimula as pessoas que o leram, a questionar e se aprofundar no tema .

  24. Caro Peixoto, muito sensato e equilibrado o seu artigo, especialmente destacando o aspecto do risco e da mudança de comportamento dos stakeholders, entre os quais, talvez os mais importantes, os consumidores. Remete-me ao livro Stakeholder Capitalism do Klaus Schwab, fundador do WEF (lancou um recentemente sobre o reset da Covid). Espero que o ESG nao seja mais um buzzword e se traduza de forma pratica cada vez mais nas próximas décadas. Abraços

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.