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A matriz energética que temos e a que queremos

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Por Carlos Peixoto

Segundo o recente relatório World Energy Balances Overview da Agência Internacional de Energia (IEA da sigla em Inglês) a oferta global de energia cresceu 2.6 vezes entre 1971 e 2019, ou seja, quase triplicou em pouco menos de 50 anos. A produção mundial total de energia ficou em 617 EJ em 2019 – para melhor entendimento da medida de energia em Joules, consultar o website da Universidade da Pensilvânia abaixo.

A contribuição do petróleo caiu de 44% para 31% e a do gás natural subiu de 16% para 23%, consolidando essa fonte de energia no terceiro lugar e demonstrando a pujança do gás natural na transição energética, já que é a fonte menos poluente entre os combustíveis fósseis. Trata-se de uma boa notícia para países como o Brasil, tendo em conta as enormes reservas de gás aqui disponíveis, tanto em terra como na camada do Pre-Sal. A fonte nuclear subiu de 0.5% para 5.0% e a soma das fontes renováveis (hidro, biocombustíveis, solar, eólica e outras) teve sua participação incrementada de 12.9% para 14.1%.

De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) do Ministério de Minas e Energia (MME), a Matriz Energética brasileira em 2019 contava com 45% de fontes renováveis, enquanto que na matriz mundial as renováveis contribuíram com magros 14%. Já em termos de Matriz Elétrica, a situação é ainda mais favorável ao Brasil, pois enquanto aqui as fontes renováveis apresentaram contribuição de maiúsculos 83%, a matriz mundial contou apenas com 26% dessas fontes de baixo ou zero teor de Carbono.

Pode causar alguma confusão ao leitor menos acostumado com o assunto a distinção entre o que é Matriz Energética e Matriz Elétrica. Por isso aqui vai um esclarecimento, baseado nos websites de EPE, ANEEL e outros:

  • A Matriz Elétrica é formada pelo conjunto das fontes primárias utilizadas na geração da energia elétrica que é disponibilizada para transmissão, distribuição e consumo na economia.
  • A Matriz Energética se compõe das fontes primárias de energia, disponíveis na natureza ou resultantes de resíduos de ação humana, as quais captamos, processamos, distribuímos e utilizamos para movimentar os diversos setores da atividade humana, em suma todo tipo de energia, não somente energia elétrica. Exemplos: (a) os combustíveis fósseis, como petróleo, gas natural e carvão mineral; (b) os biocombustíveis como madeira, carvão vegetal, bagaço de cana ou palha e resíduos vegetais em geral; (c) a força das águas dos rios, lagos e mares; (d) a força dos ventos e a radiação do sol; (e) os combustíveis radioativos como o Urânio. E o Hidrogênio cuja presença como vetor energético na matriz ainda é tímida, mas que desponta “com jeito de camisa 10”, a contar pela qualidade e quantidade de projetos de investimentos e marcos regulatórios nacionais anunciados mundo afora.

É consenso mundial que a transição energética visando o NetZero2050 deve respeitar o estágio de desenvolvimento econômico e as circunstâncias políticas e sociais de cada país. O excelente posicionamento do Brasil com 65,2% de sua Matriz Elétrica vindo da geração Hidráulica, 8,8% da Eólica e 9.1% da Biomassa nos permite uma espécie de “colchão” para o desenvolvimento e monetização de nossas massivas reservas de gás natural, presentes tanto em terra como no Pré-Sal. Obviamente que não podemos perder de vista nosso protagonismo e liderança nos esforços globais pela descarbonização da economia. Porém o que é muito bom por um lado, pode não ser assim tão bom, quando consideramos que nossa relativa dependência da fonte hídrica tem nos causado alguns sobressaltos no curto prazo, dado que as mudanças climáticas parecem estar afetando os ciclos de chuvas nas cabeceiras dos rios, com crescente impacto na variabilidade nos níveis de nossos mananciais de água e, portanto, na oferta desse importante recurso.

Daí a relevância da continuidade da ação do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), que vem buscando estimular a oferta, pela via dos leilões de oferta de geração tanto solar, como eólica e termelétrica a gas natural.

O aumento da presença das Usinas Termelétricas (UTE’s) na nossa matriz tem os efeitos benéficos de proporcionar oportunidade de monetização das reservas de gas das operadoras de O&G. Também estimula os investimentos em exploração e produção, proporcionando energia de suporte ao sistema, dado que solar e eólica são fontes intermitentes – a luz do sol obviamente não está disponível o tempo todo e os ventos não sopram uniformemente durante os 365 dias do ano. Um outro fator positivo é que a cadeia produtiva do Óleo&Gas é extremamente forte na geração de empregos, royalties, exportação e impostos, tendo, portanto, alto impacto no nível de atividade econômica. Um contraponto é que no momento, até que se obtenha um maior desenvolvimento da produção local, os grandes projetos de UTE’s entrando em operação são alimentados por LNG importado (ex.: GNA, CELSE).

No contexto mundial, a má notícia é que o carvão mineral, a despeito de todo o alarido sobre o aquecimento global, continua figurando como a segunda mais importante fonte de energia, dado que sua oferta na Matriz Energética mundial ao invés de cair, teve uma leve alta, de 26.1% para 26.8% entre 1971 e 2019. Em termos de geração elétrica, o carvão continua ocupando a triste primeira colocação, com 37% da oferta global (TES da sigla em Inglês para Oferta Energética Total). A Ásia, por exemplo, utiliza 52% da energia elétrica gerada a partir do carvão para movimentar sua pujante indústria. Note-se que o carvão mineral ainda contribui com 4.9% da matriz energética brasileira.

Sem entrar em questões mais complexas como a revisão da tabela de valor energético em Joules, vale mencionar que o valor energético do gás natural é maior que o do carvão mineral, sendo ainda o gás menos poluente em termos de gases do efeito estufa (GEE) que são gerados com a sua queima. Isso mais do que justifica o esforço brasileiro na conversão de usinas a carvão (e óleo diesel) geradoras de calor ou energia elétrica para o consumo de gas natural. Dito isso, é importante levar em conta que com relação aos objetivos de redução das mudanças climáticas, é necessário fazer muito mais do que simplesmente substituir uma fonte fóssil por outra.

Inclusive, vale ficar de olho na evolução das iniciativas a nível global e brasileiro, para viabilizar o que se tem denominado como a “Economia do Hidrogênio”. O GESEL – Grupo de Estudos do Setor Elétrico, think tank da UFRJ, por exemplo, tem se dedicado a produzir pesquisas e estudos relacionados ao hidrogênio como recurso energético do Século XXI, principalmente devido à sua capacidade para “ampliar as possibilidades para flexibilização da operação de sistemas elétricos, permitindo o uso mais eficiente de ativos de geração convencionais e renováveis”.

No entanto, não se pode esperar que a mudança da matriz energética mundial possa ocorrer assim como num passe de mágica, ou em consequência de alguma “canetada”, por melhor intencionados que sejam governos, academia e setor privado. E por mais pressão que os contribuintes e eleitores exerçam sobre os políticos e entes regulatórios.

Essa mudança passa necessariamente pela consciência do consumidor/eleitor. Recordemos que não faz muito tempo ninguém se importava muito com a origem dos alimentícios adquiridos nos supermercados, seu transporte, condições fitossanitárias e de armazenagem, conteúdo calórico, data de vencimento, etc. O mercado consumidor local, os importadores, os reguladores e entidades de controle exerceram sua influência na mudança dos padrões de exigência, o que resultou na melhoria generalizada da qualidade desses produtos. E esse processo tem sido repetido com relação a inúmeros outros bens de consumo como por exemplo os veículos, que há pouco mais de 25 anos sequer saíam da fábrica com itens de segurança hoje considerados básicos, como se houvesse sido sempre assim.

Estima-se que o mesmo ocorra com a Matriz Energética global numa velocidade cada vez maior, desta vez devido, em muito, aos alarmantes sinais de deterioração das condições climáticas. A eletrificação e a crescente participação das fontes renováveis são definitivamente uma tendência mundial e o Brasil não ficará de fora. Embora nossa posição atual nos permita ainda investir na monetização de nossas reservas de combustíveis fósseis, principalmente o gás natural. No entanto, já se iniciou o processo de fechamento dessa janela.

Quanto a nós, são inúmeras as oportunidades que se criam nas cadeias de negócios relacionadas com a transição energética. Porém, é preciso estarmos preparados.

O que você acha?

https://www.iea.org/reports/world-energy-balances-overview/world

https://www.convertunits.com/info/EJ

https://www.e-education.psu.edu/earth104/node/1344

https://www.epe.gov.br/pt/abcdenergia/matriz-energetica-e-eletrica

https://g1.globo.com/economia/crise-da-agua/noticia/2021/09/15/segunda-maior-usina-termeletrica-do-brasil-entra-em-operacao-nesta-quinta-informa-aneel.ghtml

https://www.gov.br/pt-br/noticias/energia-minerais-e-combustiveis/2020/08/maior-termoeletrica-a-gas-natural-da-america-latina-e-inaugurada-em-sergipe

http://www.gesel.ie.ufrj.br/app/webroot/files/publications/39_castro_2021_07_14.pdf

Carlos Peixoto

Carlos Peixoto

Carlos Peixoto é consultor em gestão empresarial. Por mais de 25 anos foi executivo internacional de companhia Fortune500 de serviços de O&G, ocupando posições executivas no Oriente Médio, Asia Central e Sudeste, além da América Latina. Contador, especialista em Finanças pela Universidade de Los Andes, Bogotá e especialista em Gestão de Projetos pela FGV, é cofundador e CEO da H2Helium Projetos de Energia. Atualmente é Head do Comitê de Oil&Gas e membro do Comitê de Energia Elétrica e Renováveis da Câmara Britânica de Comércio e Indústria no Brasil. Contato: carlospeixoto@h2helium.com

22 respostas

  1. Excelente conteúdo Peixoto.
    O caminho a partir do Hidrogênio está cada vez mais forte.
    Precisamos não só acompanhar, mas pensar cada vez mais nessas oportunidades.

  2. Muito bom artículo Peixoto. O hidrogênio é o carrier energético por excelencia visando Net Zero 2050; o desenvolvimento acelerado de tecnología que estamos vendo é fundamental para que a economía do hidrogênio seja uma realidade. As sociedades mais comprometidas com as energías limpas estao de alguma forma contribuindo para acelerar este proceso, e estes desenvolvimentos tecnológicos ajudarám provavelmente a que outras sociedades tamben se comprometan, criando desta maneira um círculo virtuoso para que 2050 seja uma realidade.

  3. Excelente contribuição para entendermos os cenários que serão consolidados na transição energética!

  4. Excelente conteúdo
    Com desenvolvimento de tecnologias o hidrogênio já é uma realidade.
    Parabéns e obrigado pelo artigo Peixoto

  5. Excelente, Peixoto! Criei um arquivo que chamei de “MBA Peixotão” onde armazeno todos os seus artigos. O hidrogênio é uma grata realidade, um dia ainda vamos nos perguntar como era a vida antes dele. 🇧🇷🇧🇷🇧🇷🇧🇷🇧🇷

  6. Carlos, parabéns pela excelente iniciativa.
    O Brasil precisa de iniciativas como essa para ampliar os esforços necessários para monetizar as suas reservas de petróleo e gás do pré-sal no menor prazo possível e aumentar o ritmo dos investimentos nas novas energias renováveis (eólica, solar e hidrogênio) com o objetivo de atender as necessidades crescentes de energia da nossa população e para manter a liderança do país na produção de energia limpa e sustentável.

  7. ” jeito de camisa 10″ foi muito bom! Não tinha na realidade ideia do volume mundial uso carvão tão pouco das percentagens. Muito elucidativo. Creio que a pressão clara das mudanças climáticas pelos efeitos dos combustíveis farão muito em breve a sociedade mudar a postura mais forte que itens segurança carros e alimentos, até lá qro ser empresário do camisa 10. Parabéns pelo aula Peixotao. Forte abraço.

  8. Como eu tenho visto em todos os seus artigos, um conteúdo relevante explicado com muita seriedade e de maneira a que todos os leitores entendam e gostem, parabéns!

  9. Caro amigo Peixoto. Parabéns por mais um interessante e instigante artigo. Só posso concluir que a pujança e variedade de recursos naturais no Brasil permite que possamos vislumbrar que algum dia seremos uma grande potência econômica. Quisera eu estar vivo para assistir as transformações que por certo haverão de vir.

  10. Parabéns pela matéria. Um bom resumo comparativo com relação as fontes e matrizes energéticas. O Brasil tem que reduzir o custo da molécula do gás natural para a reindustrialização brasileira, assim como, o risco político que pode afastar investimentos.

  11. Que as riquezas de nosso país que nos proporcionam uma matriz energética diferenciada junto ao trabalho consciente e esforços do setor público, comunidade científica, setor privado e sociedade possam nos colocar como referência global na transição energética com inovações e investimentos. Ganha o meio-ambiente, ganha a economia e ganha a humanidade.

  12. Excelente artículo. Muy buen resumen. Siempre aportando información interesante. Felicitaciones Carlos!

  13. Excelente conteúdo. Bem informativo e interessante trazendo sempre assuntos atuais de forma bem didática e de fácil compreensão.

  14. Caro amigo Peixoto. Parabéns!
    Mais um excelente artigo, e que precisa ser devidamente compartilhado para todos, preferencialmente para os meios acadêmicos que podem ser multiplicadores junto aos leigos e estudiosos, para que entendam a importância do tema, e o quão benéfico será em um futuro que já bate às nossas portas.

  15. The “hydrogen economy” is the next step and it is very remarkable how Brazil is set to reposition itself (again) as an energy frontrunner.
    Thanks to the author, Carlos Peixoto for this article.

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