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Será que o resultado da 17ª rodada foi um fracasso ou só um aviso?

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por Carlos Peixoto

A década de 1950 foi rica para o Brasil em termos de mudanças. Embora tenha iniciado com a derrota para o Uruguay na Copa do Mundo, o que certamente motivou a mudança de estratégia que culminou na “Seleção Canarinho” de 1958 e no desempenho dos anos seguintes. Tivemos a Bienal das Artes de São Paulo e o início da Bossa Nova. Foi uma época de grandes transformações na economia, na política e nas relações sociais, tanto aqui como no mundo.

Naquele período foram criados o BNDE (nos anos 1980 adicionou-se o “S”), a Petrobras, o Banco do Nordeste, o Plano de Valorização Econômica da Amazônia, além de muitas outras inciativas que deram suporte à crescente urbanização e modernização do país, na esteira, principalmente, dos acordos internacionais oriundos do esforço de guerra e no pós-guerra com o alinhamento do Brasil ao bloco liderado pelos EUA, em contraposição à chamada “Cortina de Ferro” encabeçada pela União Soviética. Na oportunidade houve visão e alinhamento das forças políticas, além de capacidade empreendedora para capitalizar em favor do Brasil um período de grande otimismo.

Desde o início do presente século estamos diante de um realinhamento mundial, agora em torno de causas relacionadas ao meio ambiente, contenção dos impactos das mudanças climáticas até 2050, economia de baixo carbono, energia solar e eólica, utilização do Hidrogênio como vetor energético, entre outras inciativas a nível global. O que potencialmente mudará a forma como produzimos, armazenamos, preservamos e consumimos energia, alimentos e bens em geral.

Vivemos num tempo em que a sociedade civil organizada exerce pressão sobre as lideranças políticas; poupadores redirecionam seus investimentos; fundos de investimento, family offices e private equity funds estabelecem agressivas metas ambientais aos administradores das corporações e tomadores de fundos no mercado, influenciando na alocação de recursos.

Empreendedores, administradores, governantes e formuladores de políticas públicas não conseguirão exercer suas funções, preservar seus cargos e sobreviver por muito tempo se não atentarem a esses movimentos e tendências de mudança e não se alinharem a eles.

No dia 07/10 a ANP amargou um pífio resultado na 17ª rodada de leilões de blocos potencialmente detentores de reservas de petróleo e gás. Dos 92 blocos oferecidos apenas 5 foram arrematados, todos pela Shell que consolidou sua presença na Bacia de Santos, grande produtora sobretudo de gás. Ocorre que boa parte dos blocos ofertados estavam localizados em áreas “ambientalmente sensíveis”, eufemismo usado para não falar que se tratava de blocos localizados em ou nas proximidades do arquipélago de Fernando de Noronha ou da Reserva Biológica Atol das Rocas, santuários ecológicos reconhecidos internacionalmente.

Não é preciso ser “verde” para reconhecer os potenciais impactos ambientais da exploração petroleira offshore. E não se fala aqui dos riscos de acidentes ou perda de controle da operação, pois é sabido que a indústria de O&G, aqui e lá fora, segue rígidos padrões de segurança, mundialmente reconhecidos e respeitados. Porém a simples presença em ambiente marinho de massivas estruturas para a exploração e produção como embarcações, perfuratrizes, produtos químicos, unidades de sísmica, equipamentos pesados e cabeamento elétrico que são deitados no leito do oceano, já causam distúrbios e podem resultar em desequilíbrios em áreas de preservação ambiental como os santuários mencionados.

Afora os aspectos já tão debatidos das consequências do momento político conturbado por que passa nosso país, que afetam o humor dos investidores internacionais, o leilão fracassou porque os administradores do setor petroleiro já não podem se dar ao luxo de investir em projetos que a opinião pública considera que podem gerar impacto ambiental potencialmente não mitigável. E já há algum tempo, quem decide o que é área sensível não são as autoridades governamentais dos países produtores.

A governança hoje passa por questões de sustentabilidade e imagem corporativa que antes não assumiam tanta relevância. O capitalismo moderno tem nos conduzido a uma maior transparência no processo decisório. As pessoas podem até não participar diretamente da decisão. Porém os impactos socioambientais são hoje área sensível nas corporações. Os administradores estão atentos. E as autoridades e os formuladores de políticas públicas não podem “dormir no ponto” com relação a esses aspectos.

Já é tempo, por exemplo, de CNPE e ANP adquirirem estudos de impacto ambiental independentes e obter pelo menos a Licença Prévia das áreas que pretendem licitar. Isso daria maior segurança ao investidor, além de transparência e previsibilidade ao processo. Em vez de culpar “questões ambientais” por fracassos como o que tivemos que enfrentar na 17ª Rodada. Cada vez mais os grandes investidores em energia e infraestrutura buscarão projetos que não sejam apenas rentáveis, mas que proporcionem retorno sustentável e contribuam para melhorar a imagem dos seus negócios perante o público em geral.

Além disso temos pressa em monetizar nossos recursos energéticos de origem fóssil, antes que os grandes mercados importadores comecem a descontar seu valor, tendo em vista as pressões climáticas.

O que você acha?

http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/superintendencia-do-plano-de-valorizacao-economica-da-amazonia-spvea

https://www.gov.br/anp/pt-br/canais_atendimento/imprensa/noticias-comunicados/17a-rodada-da-anp-gerara-investimentos-de-r-136-milhoes-no-pais

https://www.brasildefato.com.br/2020/11/06/em-noronha-preservacao-ambiental-volta-a-ser-debatida-com-liberacao-da-pesca#:~:text=Fernando%20de%20Noronha%20%C3%A9%20considerada,de%203%2C3%20mil%20pessoas.&text=Para%20garantir%20a%20sua%20preserva%C3%A7%C3%A3o,outras%20esp%C3%A9cies%20continuem%20se%20desenvolvendo.

https://hbr.org/2021/10/carbon-might-be-your-companys-biggest-financial-liability

Carlos Peixoto

Carlos Peixoto

Carlos Peixoto é consultor em gestão empresarial. Por mais de 25 anos foi executivo internacional de companhia Fortune500 de serviços de O&G, ocupando posições executivas no Oriente Médio, Asia Central e Sudeste, além da América Latina. Contador, especialista em Finanças pela Universidade de Los Andes, Bogotá e especialista em Gestão de Projetos pela FGV, é cofundador e CEO da H2Helium Projetos de Energia. Atualmente é Head do Comitê de Oil&Gas e membro do Comitê de Energia Elétrica e Renováveis da Câmara Britânica de Comércio e Indústria no Brasil. Contato: carlospeixoto@h2helium.com

10 respostas

  1. Com certeza questões ambientais tiveram impacto na avaliação pelos principais players do mercado
    Os lotes próximos a Fernando de Noronha, cuja exploração na análise de especialistas oferece riscos à fauna marinha, não receberam proposta.

  2. Perfeito o artigo e as suas colocações. Penso que a licença ambiental prévia ou, ao menos, uma avaliação prévia positiva dos requisitos ambientais, agregaria maior credibilidade ao processo e aumentaria a confiança dos investidores no negócio e no País. Espero que as Autoridades Reguladora e Governamental estejam atentas à essa sua sugestão e a implemente o mais rápido possível. Parabéns!

  3. Excelente artigo, caro Peixoto.
    Penso que podemos considerar que para estes lotes, os arrematante manterão os compromissos de manutenção e zelo ambiental, já conhecidos de todos.

  4. Absolutamente preciso em sua análise. Para atração de interessados, maximização dos valores e maior probabilidade de sucesso de qualquer processo de venda não basta a atratividade da oportunidade. São fundamentais as reduções das incertezas e dos custos de agência.

    A ANP tem um corpo técnico competente que saberá reduzir essas incertezas e esses custos, implementando estudos prévios ambientais, geológicos,…

  5. Precisa a análise. A ANP deve ser uma agência técnica com entendimento de como os investidores nacionais e estrangeiros tomam suas decisões. Me parece que falta esse conhecimento a liderança atual da ANP.

  6. A sugestão é fantástica, mas até onde as agências ambientais estariam dispostas a isso? Será que se a ANP fizer os estudos prévios, os processos seguintes, já nas mãos das operadoras, não sofreriam com alguma exigência de última hora?

  7. Caro Peixoto,
    Gostei muito de mais um resumido panorama estratégico que você nos proporciona aqui no Negocios.
    O (triste) quadro geral do futuro climático – que afetará todo o planeta e a sociedade que o habita, com seus governos, instituições e setores de negócio – está claro.
    Dentro dele, há apenas uma única direção possível para atuação de governos e empresas, que é considerar, não subestimando, os seus impactos em cada passo decisório, integrando-os nas suas governanças.
    Dentro de um ambiente tão complexo (ainda há os impactos da digitalização global e outras causas-raiz, como sistemas produtivos ainda muito poluentes etc), é bastante óbvio reconhecer que é necessário ouvir muito e cada vez mais os atores principais envolvidos antes de estabelecer cursos de ação. Quantas instituições estão se estruturando para isso, que não envolve apenas atitude de líderes, mas gestão e organização interna para realmente ‘ouvir’ stakeholders externos e internos e incorporar estruturadamente esta informação nas suas governanças e processos decisórios? Infelizmente, muito, muito poucos.
    Seu artigo, pelo qual o parabenizo, me proporcionou muitas reflexões, algumas colocadas aqui no papel digital.

  8. Peixoto parabéns pelo artigo.
    Você tem toda razão a relevância da imagem corporativa em relação a ESG passou a ter uma outra magnitude e assim suas consequências.

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